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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Gato Albino - PARTE I

   

    Há algo mais estranho, que um gato albino caro leitor? Talvez haja. Porém me resta explica-lhes o ocorrido para que derradeiramente concordem comigo.
    Aquele dia não havia começado como todos os outros. O relógio pendular do extenso corredor do castelo de Mormorom, que há muito não funcionava, rompia a quietude inquietante de uma sexta feira 13. Nada contra a data, mas é que de uma forma ou de outra esta data sempre será recordada com sinônimo de agouro. Esta atravessara gerações como sinônimo de agouro, bruxaria, e outras tantas esquisitices. Mesmo para o homem mais descrente isso o empolaria de medo.
   Batia uma da matina, e meus olhos saltavam mais uma vez com um indômito desejo de caminhar pelos corredores e tomar aquela brisa da madrugada. Nada me perturbava mais do que aquele incontrolável desejo de me expor ao medo. Já não bastava o relógio dar o ar de sua graça em plena meia noite e agora aquela sensação de que o quarto não era mais seguro do que à noite lá fora.
   Mesmo que imbuído de medo, rumei noite adentro nos corredores escuros do castelo, uma e outra tocha ainda acesa da noite anterior me trazia conforto e segurança. Vultos eram comuns no castelo todas as noites, este era conhecido como o santuário dos vigias. Dizia à lenda que todos os vigias do castelo desapareciam, vejam! Em noite de sextas feira 13! E ao que parecem todos os “supostos vigias” estavam se refrescando na madrugada. Vultos e sombras, mais que incomuns, decoravam as paredes do castelo aquela manhã. Um terror dentro de mim aumentava a cada passo que eu dava e por algum motivo uma força maior me obrigava a seguir em frente.
   Quando percebi, estava no corredor que dava no depósito de alimentos, onde desde 1420 os vigias montavam guarnição. O meu estômago agora embrulhava em uma contração que me obrigava há abaixar um pouco, o medo era de tal proporção que minhas pernas tremeram um pouco e eu caí junto à parede, tapando minha boca involuntariamente na esperança de não ter sido ouvido por ninguém.
   - “Conde Mormom?”
   O vigia chama em uma voz rouca de velhice o dono do castelo.
   - “Quem está ai?”
   Gritou mais esganiçado ainda.
   - “Não irei responder por meus atos.”
   Ao finalizar estas palavras ouvi um estalido de arma carregada, e meu medo assombroso me fez correr. Uma perseguição começou dentro do castelo. O vigia manco corria desajeitado na direção oposta, a procura de algo que não a mim. E isso me deixava ainda mais curioso e assustado. Caí entre umas plantas no meio de minha fuga e lá fiquei aguardando o que mais poderia acontecer. O cansaço era tamanho que a minha falta de discrição me incomodava, o barulho de minha ofegante respiração poderia ser ouvido a metros. E o que eu menos queria era ser morto por um velho louco.
   Duas horas, e ainda faltavam 22h para aquele maldito dia acabar. Certo que ao amanhecer tudo seria diferente.
Bem menos cansado, mas ainda com muito medo, partir em direção ao quarto. E como não bastasse tudo que tinha passado ao chegar, três gatos listrados me esperavam estranha e prontamente. Tangi-os e entrei rapidamente me enfiando debaixo dos cobertores a procura de abrigo e segurança. Como se fosse conseguir dormir novamente.
   Dlom... Dlom... Dlomm...
   Quatro...
   Cinco.....
   Finalmente Seis da manhã. Todos os criados se acordavam e a rotina começava. E o melhor, o sol aparecia deslumbrante. Nunca tinha admirado o sol como aquele dia.             Uma correria nos corredores me assustou. E abri a porta vagarosamente para verificar o que poderia ser. Muitas caixas e armações eram carregadas de um lado a outro.
   -Bom dia Conde Stein. Feliz dia de Vigias!
   Eu apenas acenei para o mordomo do Conde Mormom.
   -O senhor parece não ter dormido bem. Aceita um chá?
   -Sim. Seria muito bom um chá bem forte e sem açúcar Mons. Obrigado.
   -Com licença Conde.
   Com uma reverência ridícula ele se desfez e saiu. Enquanto isso eu me aprontava. Um bom banho disfarçaria minha noite mal dormida. E uma roupa elegante também.
   O tempo que levei para tomar banho e me trocar foram o bastante para que Mons prepara-se o chá e o trouxesse para o meu quarto. Agradeci-o. E ele se retirou.
   Depois disso foi ao hall de entrada do castelo, onde o Conde Mormom sempre está sentado de costas para a entrada, em sua cadeira de ouro maciço acolchoada em linho verde esmeralda. Girando seu enorme anel real, distraído, olhando por uma minúscula janela um pouco acima da altura de sua visão.
   Ao chegar o cumprimentei em uma elegante reverência, mas com uma profunda vontade de não a fazer.
   - Vejo que não dormiu bem Conde Stein.
   -Eh... -Procurei por desculpas e mais desculpas.
   -Acho que foi algo que comi ontem.
   -Zombas da comida que vos ofereço conde? Que indelicadeza.
   -De maneira alguma Conde Mormom, é só o meu estômago que não é digno de meus títulos. –       Disfarcei fúria em um sorriso forçado. Ele riu ironicamente.
   -Teremos um baile hoje à noite Conde Stein. Faz parte de nossa tradição as sextas feira 13 comemorar, a coragem e fidelidade de nossos vigias noturnos que respeitosamente durante mais de duzentos e cinqüenta anos guardaram tão eficientemente os corredores deste castelo. Tomei a liberdade de mandar fazer sua fantasia. Espero que goste.
   -Agradecido Conde Mormom. Tenho certeza que o gosto da realeza é sempre o mesmo.
   A tarde passou rapidamente e minhas observações, me fizeram crer que o que se passa nesse castelo é obra do sobrenatural. O relógio que durante toda madrugada anunciava assombrosamente as horas, durante o dia permaneceu inerte e em silêncio absoluto.
   A nobreza começou a chegar. Às suas carruagens muito bem trabalhadas e decoradas. Outras bem exageradas e luxuosas. Muitas damas acompanhadas e desacompanhadas cobriam seus rostos com máscaras. E vendo-as lembrei de que teria que pôr a minha.
   Durante o baile dancei com umas cinco damas, que ao que parece tinham estudado muito minha vinda ao Castelo de Conde Mormom. Afinal, todas me reconheceram e suas indiscrições amorosas me constrangiam. Recebi o convite quase irrecusável de uma bela morena de curvas sinuosas a visitar seus aposentos. Meus extintos primitivos de necessidades masculinas me empurravam para os braços da morena vigarista que provavelmente só queria status. Mas do outro lado da moeda minha honra e deveres de nobre me faziam reconhecer o quão importante é o controle sexual nessas horas. O que evita muitos problemas dentro de nossa classe.
Conde Mormom encerrou oficialmente o baile após fazer as honrarias ao vigia de seu castelo. Uma bela medalha com um rubi no broche foi dada ao pobre infeliz que ao que parecia não estava muito contente com as homenagens a ele feitas.
Terminei a noite na indecisão de uma estrada de via dupla que era o corpo daquela belíssima morena. Tinha até esquecido dos horrores de mais cedo. E o melhor ninguém havia desaparecido naquela sexta feira 13.
CONTINUA...

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